Acts 1:12-14 ASV

Pois é, Jesus subiu aos céus. Provavelmente lembramos da cara dos discípulos, boquiabertos, estarrecidos, sem saber o que dizer ou o que fazer. Olhemos bem para eles. A essa altura, já deve fazer uns dois minutos que Jesus subiu, e eles ainda estão lá, esperando. E não acontece mais nada! Jesus não volta para falar: "Vamo aí, moçada, se mexendo, 1, 2, 3!"; ou ainda: "Ahá! enganei vocês, hein?! Pensaram que eu fui embora, né?". Nada! Só silêncio. E aí se passam mais uns dois minutos. Uma folha cai ali, um passarinho canta acolá, o vento fresco de sempre, "a mesma praça, o mesmo banco, as mesmas flores e o mesmo jardim...". Tudo completa e estranhamente igual.
Às vezes me parece que a sensação dos discípulos é mais ou menos aquela de quando se está assistindo um filme, tudo muito bom, trama excelente, concentração total, nosso cérebro acompanha cada movimento, cada cena e então... sem mais nem menos... quando ninguém espera... o THE END aparece. Os caracteres começam a rolar na tela, featured by .... , cast..., produced by... soundtrack.... E então acabou. Só o chuvisco aparecendo na TV e todos nós ainda sentados ali: parados, olhando. Aí passam uns dois minutos. "E então ...?!" - alguém pergunta. Silêncio. Mais dois minutos: "Pois é, acabou mesmo!" - diz um outro. Aí alguém diz: "Vou ao banheiro!"; e o outro pigarreia sem ter muito o que falar. Cada um se levanta e começa a atender suas vontades ou necessidades mais corriqueiras, sem saber direito o que pensar, o que foi que mudou, o que vai acontecer agora, etc. Nada de novo acontece, a não ser aquela sensação estranha do "the end", da história que acabou. Da etapa que terminou.
A história de cada discípulo de Jesus podia ser dividida em A.A. e D.A (antes da ascensão e depois da ascensão). Antes da ascensão era uma beleza! Com exceção daquele sábado antes da Páscoa, onde Jesus ainda não tinha ressuscitado e todo mundo estava assustado; a vida dos discípulos podia ser considerada relativamente tranqüila. O mestre estava sempre perto. Explicando as parábolas, ensinando sobre o Reino, sobre a vida.
Eis o depoimento em entrevista exclusiva de um daqueles discípulos que, por motivos exegéticos, preferiu manter seu nome em sigilo:
"Ah! Bons tempos aqueles com o Mestre, sabe moço. Era segurança e paz que não acabavam mais. O Mestre sempre sabia o que ia acontecer, era só a gente perguntar e pronto: Mestre, onde vamos dormir hoje? Mestre, aonde comeremos essa tarde? O que faremos depois? Quando acontecerão essa profecias sobre o templo, Mestre? E Ele tinha a resposta pra tudo, filho, prá tudo! Às vezes não era bem a resposta que a gente queria; às vezes a gente nem entendia direito o que o Mestre dizia mas... Ele estava ali e era bom! Ai, ai (silêncio... um suspiro olhando o horizonte). Aquele olhar que Ele tinha... Aquele sorriso... A gente se sentia como as pessoas mais importantes do mundo, seu moço. Nossa cabeça erguida, orgulhosa de estar andando do lado dele. Jesus de Nazaré! O Messias de Deus! Era como voltar de volta à infância, só que muito melhor..."
Quantos de nós já não tivemos essa mesma experiência de aconchego e acolhimento junto aos braços de Jesus? Quantas vezes já não nos deparamos mergulhados na nostalgia explicitada naquela frase: "Bons tempos aqueles..."!? Quantas vezes já não nos vimos desejosos de voltar na nossa história, para aquele tempo dos picos de fé, do fervor do espírito, da experiência quase que palpável do amor e da presença de Jesus? Quantas vezes esse estranho tipo de saudosismo aos plenos vinte e poucos anos já não nos pegou?
Entretanto, chega uma hora em que Jesus ascende aos céus. E começa uma nova caminhada, uma nova etapa na vida dos discípulos. Depois da ascensão. Sem a presença física do Mestre. Sem Jesus. Sem resposta.
Então eles caminham mais ou menos um quilômetro, voltando para Jerusalém, em direção à casa da mãe de Marcos, que tinha emprestado o cenáculo (um tipo de sala de jantar) para Jesus tomar a ceia com seus discípulos. Agora eles moravam lá. Andando juntos, imagino que falavam muito pouco uns com os outros. Neste momento, falam bem mais consigo mesmos. Em sua memória se recobram flashes das palavras e dos momentos com o Mestre. Em seus corações a tentativa de reinterpretar os fatos a partir da ascensão e, dentro de cada discípulo, amontoam-se frases que deveriam ter sido ditas, perguntas que deveriam ter sido feitas. Todas elas sem retorno, sem resposta.
Entretanto, quase que inexplicavelmente, em meio a tantas perguntas e incertezas, uma convicção mais forte do que nunca cresce dentro de cada um... Gente, ele é o Messias! - suspira um deles baixinho. Um pouco mais alto um outro pensa: Caramba, o Mestre era mesmo o Cristo! - aí ele fala para o companheiro de caminhada: "Meu, você tá entendendo?" - e chama os outros, dizendo: "Gente, espera aí, vocês tão vendo o que aconteceu? "O cara subiu aos céus, ele é o Cristo de Deus, gente! Foi Ele que Deus mandou e foi a gente que Ele escolheu para segui-lo, vocês tão entendendo!?". De repente, um brilho novo aparece nos olhos dos discípulos. Espere um pouco. Somente discípulos? Não! Do rosto assustado de cada discípulo renasce um embaixador, uma testemunha! Jesus é o Cristo e eu vi! Eu presenciei, nós presenciamos! E a cada minuto, a cada metro que andavam, a cabeça deles fervilhava, olhando para o passado e entendendo aquelas palavras ditas pelo Mestre. Tudo vai ficando mais amplo, os sentidos ficando mais abrangentes, as convicções se tornando mais cada vez mais profundas e as perguntas mais irrelevantes. Mas... o que fazer? Para onde iremos? Não importa! Jesus prometeu, Ele vai cumprir! Ele é o Messias, o filho de Deus!
E os discípulos chegam ao cenáculo e nada poderia ser mais forte naqueles momentos do que a certeza que Jesus os podia ouvir. E então eles oram. E eles são unânimes! E eles perseveram! Pela primeira vez eles perseveram em oração. Das outras vezes parecia difícil, meio chato, dava sono e eles acabavam dormindo. Mas agora não! Tudo parecia diferente; eles não conseguiam mais parar de orar (assim como eu não consigo parar de escrever). Uma caminhada de vinte minutos (do jardim das Oliveiras até o cenáculo) pôde amadurecer os discípulos pelo menos uns 10 anos! E essa é a palavra que para mim é mais forte nesse texto: Maturidade!
Chega uma hora em que Jesus ascende aos céus. Ele ensinou o que nós tínhamos que fazer e agora espera que nós o façamos; que nos tornemos adultos na fé, olhando com convicção para as verdades a nós ensinadas e trabalhando em prol das causas do reino de Deus para honra e glória do Senhor Jesus. "...Quando eu era menino, falava como menino, sentia como menino, discorria como menino, mas, logo que cheguei a ser homem, acabei com as coisas próprias de menino..." (1Co 13:11).
Espero realmente que Deus possa estar investindo na nossa maturidade enquanto cristãos, para que possamos ser mais do que simplesmente discípulos, aprendizes, time do "café-com-leite", com o qual Ele tem que estar sempre mostrando as mesmas coisas, ensinando as mesmas lições, passando a mão na nossa cabeça mimada e infantil. Que Deus nos possa usar em sua obra como cristãos maduros, prontos para resistir às tentações, para perseverarmos em oração unidos, unânimes em favor da causa de Cristo. Vamos perseverar em orações e súplicas diante de Deus em favor do Seu reino, do cumprimento da Sua vontade em nossa vida. "Venha a nós o vosso reino...".
Vamos nos comprometer com seriedade, com inteligência, com força e com maturidade, principalmente com maturidade. Cresçamos, gente! Como os discípulos fizeram. Pela primeira vez na história eles fizeram sozinhos uma coisa acertada! Eles cresceram e se tornaram homens. Homens de Deus. E a partir de agora os discípulos de Jesus, que antes eu considerava como os seres mais estapafúrdios da história, crescem no meu conceito. Eles agora me parecem maduros, mais maduros e sábios do que eu. Eles perceberam essa verdade numa caminhada vinte minutos e eu sou cristão a mais de dez anos...
Fiquem na paz!
Jeyson Cordeiro