Acts 4:32-35 ASV

Agora já não é segunda de manhã e, apesar de eu não ter almoçado, o relógio aqui no meu trabalho está marcando 14:40. Hoje, em vez de ficar em casa meditando sobre o texto acima, eu tive que começar a trabalhar às 7:15 da manhã. É engraçado como às vezes nossos compromissos nos engolem e, apesar de sermos todos irmãos em Cristo, nos percebemos muitas vezes sozinhos, cada qual correndo para cumprir sua própria agenda.
Nossos planos, perspectivas e expectativas comuns para o dia são colocados de lado naquela famosa frase “isso aqui eu vou ter que deixar para depois”. Para depois do almoço; para depois do trabalho; para depois da janta; para o fim de semana; para o próximo feriado... para antes de morrer. O pior é que aquilo de “deixamos para depois” é justamente o mais essencial, aquilo que gostamos realmente de fazer; aquelas coisas que nos dão um senso de realização, de alegria. Deixamos os amigos para depois, a oração para depois, a bíblia para depois e acabamos por deixar a própria essência da vida para depois. Sem nos darmos conta da gravidade do que fazemos, nos vemos protelando o real significado da vida em favor de coisas completamente secundárias e periféricas. Sem a busca pela essência naquilo que fazemos, tudo o que fazemos se torna fútil, vaidade mesmo, como diz o pregador em Eclesiastes.
Ao notar que os cristãos da Igreja de Atos tinham tudo em comum precisamos perceber que a primeira característica que a palavra tudo engloba é justamente o coração e a alma (Da multidão dos que creram era um o coração e a alma). A multidão, antes incrédula, era absolutamente heterogênea, ou seja, pessoas de culturas diferentes, de famílias diferentes, de personalidades diferentes que se encontraram com a palavra poderosa de Deus e foram transformadas no corpo vivo de Cristo. Elas agora têm os mesmos propósitos, os mesmos sonhos, a mesma meta de servir a Deus em louvor e consagração de vidas. O coração daquelas pessoas está no mesmo lugar e, se lembrarmos das palavras de Jesus: “onde está o teu tesouro, aí está o teu coração”, percebemos logo o porque da nossa impressão de que a igreja de Atos está tão distante da nossa realidade. Mesmo em se tratando da nossa igreja, que está longe de ter cinco mil pessoas ativas na fé. Se pararmos um pouco para observá-la (nossa comunidade), notamos prontamente que o tesouro das pessoas está em outro lugar. Não temos tempo para nos dedicarmos às coisas concernentes ao reino de Deus durante a semana, não há espaço em nossas agendas para conversar com os irmãos que vimos abatidos no culto de domingo, temos pouco tempo para orar, para meditar e pra ler a bíblia. Aliás, as duas horas do culto de domingo podem vir a ser o único tempo que disponibilizamos para estar Deus durante toda nossa semana. Isso dá uma média de 8 horas por mês para Ele e 712 para todas aquelas coisas que não são essenciais. Se você for um crente que medita todas as noites pelo menos uma hora, essa média sobe para 38 horas contra 682. Não temos como negar que nosso coração está em outro lugar em pelo menos 95% da nossa rotina mensal. É a matemática mais triste da minha semana. A igreja cristã atual definitivamente não cresce mais nos moldes do Salmo 1 (... como árvore plantada junto a corrente de águas, que, no devido tempo, dá o seu fruto). Nós parecemos mais como cactos no deserto que sobrevivem no deserto da sequidão da palavra de Deus. E isso apesar da palavra de Deus estar ali, na cabeceira da nossa cama, todos os dias, à espera de alguém com olhos ávidos pela revelação de Deus. Somos frágeis, desnutridos e raquíticos espiritualmente, nos rastejando durante a semana fracos e esqueléticos até chegar o domingo, onde somos alimentados para malmente recuperarmos nossas forças.
A verdade é que definhamos espiritualmente. Comemos pouco e trabalhamos muito. As vezes trabalhamos para a Igreja, as vezes fora dela mas, de qualquer forma nosso homem espiritual sofre o holocausto do domínio do periférico sobre o essencial. O trabalho mais importante do que a vida pessoal com Deus. Não é à toa que temos líderes cansados, obreiros aborrecidos e membros indiferentes uns aos outros em nossas comunidades. Nós confundimos o trabalho para Deus com a vida com Deus. Achamos que o trabalho no ministério é mais importante do que nossa vida devocional e acabamos por nos notarmos orgulhosos da nossa falta de tempo: “Puxa, estou numa correria. Acordei correndo para preparar as coisas para o Encontrão, depois dei um estudo no grupo de Jovens; à noite ajudei o pessoal da comunidade a preparar as inscrições e cheguei em casa quase morto de cansaço.” Na igreja de Atos, cada qual tinha uma função, mas o coração e a alma de cada um estavam unidos com Jesus, através da perseverança na doutrina dos apóstolos, no partir do pão e nas orações (Atos 2:42).
Na minha opinião, essa primeira frase na descrição da comunidade cristã primitiva, “da multidão dos que creram era um o coração e a alma”, é a raiz a partir da qual se desenvolve todo o resto do texto. Se temos os mesmos propósitos e lutamos pelo mesmo objetivo, prontamente colocaremos à disposição de tal propósito tudo o que possuímos. É como entrarmos em uma sociedade, em uma cooperativa. Aqui vai um pequeno exemplo. Quando nós resolvemos montar a Atuarte Animações em 1998, éramos em quatro sócios. Investimos o que tínhamos e lutamos para que o nosso trabalho rendesse e frutificasse. Abrir mão do tempo e do dinheiro que possuíamos era óbvio para que o negócio fosse para frente. “Pulamos de cabeça”, prá valer.
Tínhamos o “mesmo coração e a mesma alma”.
Se olharmos para o texto de Atos a partir desta perspectiva, veremos que não se trata aqui de vendermos tudo o que temos e passarmos o dia todo na igreja. A palavra deste texto nos convida a sermos um, a buscarmos um ao outro em amor, a não considerarmos o que possuímos exclusivamente nosso e a nos colocarmos à disposição dos propósitos de Deus dentro da nossa comunidade. Estar ligado intimamente com Deus, através da oração, do louvor, da ministração da palavra e da comunhão. Trata-se de priorizar a coisa certa: a relação íntima, profunda e pessoal com Deus e com os irmãos na fé.
Deus é um Deus pessoal. Ele quer sejamos pessoais como Ele; que sejamos atenciosos com os que precisam, que choremos com os que choram, que nos aquietemos juntos aos pés de Jesus e que nos deixemos ser preenchidos pela paz abundante vinda daquele que venceu o mundo.
Aqui, faz-se necessária uma ressalva. É preciso não confundir vida espiritual intensa com ativismo religioso. Um leva à abundante graça e o outro ao stress abundante. Um desenvolve o homem espiritual e o outro o definha a cada dia.
Se priorizarmos em nossas vidas o tempo para a oração, para a leitura da bíblia, e para a comunhão com os irmãos, então estaremos mais perto dos cristãos descritos no livro de Atos: ...em todos eles havia abundante graça.
Minha oração é para que entremos de cabeça em uma vida cristã comprometida com Deus, íntima e pessoal com o Criador através de Jesus Cristo e para que assim, crescendo em abundante graça, nos coloquemos à disposição de todos os necessitados, quer em aspecto material, social, emocional ou espiritual.
Que o Senhor nos dê essa graça de sermos um no coração e na alma.
De orarmos mais!
De meditarmos mais!
De termos mais comunhão, mais louvor!
De termos mais essência e menos casca nessa caminhada rumo ao prêmio da soberana vocação em Cristo Jesus!
Um forte Abraço
Jeyson Cordeiro